O menino do nome mágico – Gustavo Lima

Atualizado: 31 de Mar de 2020

“Qual seu nome?”. O menino odiava essa pergunta. Cabisbaixo, ele entrou pelo portão para o seu primeiro dia na nova escola. Como era novidade, logo chamou a atenção das outras crianças, e um colega, muito simpático, foi até ele:


– Qual seu nome?


À pergunta do garoto, o menino respondeu como a experiência o havia ensinado: silêncio. Por isso, pareceu muito antipático aos outros garotos. Mas nem sempre as coisas foram desse jeito.


Quando o menino nasceu, sua mãe, uma feiticeira não muito sábia, foi ao cartório, com ele no colo, para registrá-lo. Queria chamar o menino de Esquelenébrio. O tabelião, ao ouvir o exótico nome, riu de perder o ar. A feiticeira, enraivecida pela humilhação, lançou nele um feitiço, pronunciando uma terrível palavra mágica, que fez os dentes do tabelião sumirem. O homem parou de rir imediatamente, ficou furioso, mas teve medo de dar qualquer resposta. Então, fez-se de bobo, que entendeu que a palavra mágica deveria ser o nome do menino e registrou-o assim.


Chamar o menino pelo seu nome – a palavra mágica – nunca causou mágicas inesperadas, até que o próprio menino aprendesse a falar. A partir de então, notou-se aos poucos que algo estranho sempre ocorria quando ele se apresentava: mágica e automaticamente, acontecia algo de bom a quem tinha perguntado seu nome, normalmente o desejo que emergia no coração da pessoa naquele momento.


A princípio, isso fez do menino muito querido e popular. O problema: todos só queriam ouvir o nome do menino, ninguém procurava conhecê-lo além disso. Como nome só se diz uma ou duas vezes a cada pessoa – no máximo três, a um desmemoriado –, o menino era frustrado em toda tentativa de aprofundar um diálogo. Logo, não tinha amigos.

Vamos voltar ao primeiro dia de aula do menino.


Já em sala de aula, a professora convidou-o a se apresentar à classe. Vendo-se numa daquelas situações em que não há escapatória, decidiu falar baixinho o nome e emendar logo noutro assunto, esperando que ninguém notasse qualquer coisa estranhamente mágica que acontecesse.


– Meu nome é (sussurro), eu gosto de…


Ninguém prestava mais atenção. Livros ridiculamente desordenados começaram a se arrumar sobre a prateleira, agora reta, que ficava sobre a mesa da professora, na qual havia uma plantinha antes morta e então viva e cheia de cores. E os cabelos e roupas de péssimo gosto da professora converteram-se em cortes e estilos exuberantes. Sua verruga na ponta do nariz sumira.


A professora fora avisada da situação do menino e foi de propósito que o fizera se apresentar. Logo, toda a escola sabia do nome mágico do menino. Todos procuravam ocasião de falar com ele e induzi-lo a dizer seu nome. O menino simplesmente ignorava.

Você pode ter-se perguntado por que ele simplesmente não mentia o nome. Bom, era parte do encanto do nome. E mesmo que pudesse mentir, não faria: o menino gostava do próprio nome, não gostava de como as pessoas o tratavam. Mas nunca culpara seu nome por isso.


De volta da escola, o menino entrou para o quarto, para que ninguém o notasse. Na verdade, adoraria ser notado, mas não que notassem sua tristeza e, sabia, era só sobre isso que perguntariam seus pais.


Sentado em sua cama, pensando em como todo mundo se interessava, e só, por seu nome (ou pelo que ele podia fazer por eles), o menino começou a se questionar – e a duvidar – se ele era, de fato, algo além de um nome mágico. De repente, teve uma daquelas ideias como-eu-nunca-pensei-nisso-antes. Levantou-se, foi até o espelho. Na esperança de, pela primeira vez na vida, usar a mágica de seu nome a seu próprio favor, mas cheio de questionamentos misturados a sua esperança, disse:


– Quem é você, (sussurro)?


Nada.


Frustrou-se, nem tanto com a ausência de mágica, mas muito mais com a ausência de resposta.


Como não era de conformar-se, foi até seu pai e declarou:


– Eu não sei quem eu sou.


Seu pai não era um feiticeiro, mas um sábio. Nada surpreso com a declaração do filho, olhou-o brevemente e respondeu: