Rupi Kaur: estrutura poética, ridicularização e o orgulho da mulher imigrante

Rupi Kaur (Panjabe, 5 de outubro de 1992) é uma poeta feminista contemporânea, escritora e artista da palavra falada. (Wikipédia) Rupi Kaur, 27 anos, poeta. Tenho certeza que você já ouviu seu nome. Rupi teve o seu sucesso meteórico através do Instagram na última década, onde foi intitulada Instapoet pelos seguidores. Em 2015, publicou seu primeiro livro milk and honey (outros jeitos de usar a boca, no Brasil) e seu alcance foi instantâneo nas maiores listas de best-sellers. Rupi Kaur, 27 anos, mulher, não-branca. Desde que o mundo é mundo, mulheres têm sido desmerecidas ou até mesmo ridicularizadas quando chegam ao topo. Rupi não ficou isenta. A ridicularização da sua obra torna-se ainda mais elevada quando entendemos que estamos tratando de uma mulher fora dos padrões físicos, sociais e culturais. Com a sua rápida ascensão na cultura literária, Rupi foi vítima de satirizações que desmereciam sua obra e a estrutura poética “quebrada” de seus poemas. Imagens: Reprodução/Twitter Note que não desejo tornar a imagem de Rupi imaculada e protegê-la de todos os males. Aqui, desejo explorar a ferida que tem doído a minha mente-poesia há tanto tempo. Reflito, de tempos em tempos, se teríamos tanta ridicularização se a poeta fosse uma mulher branca europeia. Ou, quem sabe, se fosse um homem? Um homem branco? Um homem branco europeu? Hm? Vê como a ferida dói de maneiras que não percebemos antes? Um exemplo disso (e fato que pude comprovar nos últimos anos) é que a maioria brasileira que menospreza a poesia de Kaur é grande fã da poesia de Leminski. Fotos: Divulgação Consegue notar a semelhança de versos “quebrados”, uma espécie de poesia concreta, e a presença de trocadilhos? Enquanto Paulo Leminski, um homem branco, é por muitos endeusado, Rupi Kaur se torna objeto de escárnio aos “grandes entendedores” da poesia mundial. Entenda que o que me leva a construir e entender este pensamento não é um ódio gratuito a Leminski, mas tentar desmascarar uma pequena parte do preconceito que perpassa as nossas relações literárias. Consigo racionalizar o quão importante Leminski é para a manutenção da literatura não só brasileira, como mundial. O que me incomoda, de maneira mais profunda, é que as críticas feitas à Rupi deveriam ser feitas a Leminski também. Somos uma geração de leitores que utilizam dois pesos e duas medidas diferindo poetas não pela qualidade de seus escritos –e aqui quero dizer que ambos são espetaculares–, mas por questões que não cabem a nós? Não consigo encontrar um argumento cabível a esta situação que não seja o desenvolvimento de uma crítica racista e misógina à jovem poeta. E, sejamos sinceros, estamos no século XXI! O período de trevas passou. Já deveríamos ter entendido que desprezar alguém por qualquer característica própria é crime. Inafiançável. Consegue compreender? Não há a necessidade de diminuir um autor para admirar outro. E quando esta diminuição é envolta em machismo e racismo, é ainda pior. Rupi Kaur, 27 anos, indiana, imigrante. Recentemente, tive o prazer de concluir a leitura de seu último livro the sun and her flowers (o que o sol faz com as flores, no Brasil), e é notável como a poeta transformou sua poesia em uma ferramenta política de conscientização e amor às suas raízes. Nesta coletânea, Rupi demonstra com mais afinco as batalhas que travou por estar dividida entre duas terras, como lida com a mãe que não domina as línguas predominantes no Canadá, a dor de imigrantes em campos de refugiados. Faz-se necessário notar que a delicadeza e o engajamento de Kaur em questões políticas a tornam mais atenta aos nossos tempos. Em tempos de incertezas, perda de direitos e outros retrocessos que nos rodeiam dia e noite, Rupi consegue, de maneira espetacular, tratar as dores e amores sobre a adequação à imigração e ao estrangeiro. Assim, Rupi chega cada vez mais perto de seu público: mulheres livres que ainda encontram poesia no mundo ao redor. Rupi Kaur, 27 anos, poeta.

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