Isto precisa de um nome

Eu nunca disse ser uma escritora. Sempre pensei que me afirmar escritora seria um peso, uma responsabilidade grande demais. Afinal, escritores são os detentores de obras como ‘Anna Karenina’, ‘Kindred’, ‘O Vale das Bonecas’, ‘A História Secreta’, entre tantas figuras que estão eternizadas em bibliotecas e nomeações a prêmios ilustres.


Ser escritor, eu pensava, demandaria atribuições e habilidades que eu acreditava não ter: tempo, pesquisa, análise e dom. Se eu me tornasse uma escritora, eu precisaria de muitos atributos que não nasceram comigo. Eu coloquei um tremendo peso sobre o ofício da escrita que eu esqueci, de todas as maneiras, o que realmente é ser uma escritora: escrever.


Gloria Steinem, ícone do movimento feminista nos Estados Unidos, diz que ‘se uma frase evoca mais que uma história, é muito possível que ela perdure por muito tempo’. E eu deveria levar isso em consideração de maneira leve, suave e, também, divertida.


O peso que as palavras carregam, no melhor sentido da coisa, tornara-se um fardo para mim; tornara-se uma obrigação.


Se sou escritora, preciso publicar. Se sou escritora, preciso pesquisar inúmeras referências diferentes. Se sou escritora, se sou escritora, se sou… escritora? Eu me permiti ficar tão absorta em questões irrelevantes que diziam mais sobre o externo que o interno, que fui paralisada pela excessiva autocobrança.


Há um filme, uma comédia adolescente, em que uma frase diz “nunca deixe o medo de errar impedir que você jogue”. Se você foi uma criança antenada nos anos 2000, sabe exatamente de qual filme estou falando. Mas a questão não é o filme. Foco. A questão é que, conforme vou amadurecendo, amadurecendo minhas ideias e minha escrita, essa frase começa a me atingir de uma maneira mais direta.


Se fôssemos reescrever a frase, seria algo como “nunca deixe o medo de escrever algo ruim impedir que você escreva”. Porque, honestamente, é sobre isso que estamos falando aqui. Não me nomeava escritora justamente pelo medo de escrever algo tremendamente ruim que, na minha imaginação, poderia acabar com a minha vocação em relação à escrita, e relação às palavras.


Como, então, poderia eu pensar que um rascunho poderia minar todo um talento? Como algo que pode ser desfeito e refeito poderia exterminar o que me move, o que faz com que eu me sinta viva?


Nós, escritores, temos nos tornado, a cada dia, aqueles que sobrevivem às crises, no micro e no macro, contando histórias. Joan Didion dizia que “contamos histórias a nós mesmos para viver”, mas a cada dia entendo que contamos história não só a nós mesmos, mas às pessoas ao nosso redor. Seja longe ou perto, nossas palavras importam porque elas nos dão vida.


Na ótica cristã, tudo se deu pelas palavras. E disse Deus haja luz, e houve luz. Imaginem só se o medo de errar impedisse que Deus falasse, criasse, fosse artista.


Imaginem só se nosso medo de palavras erradas, parágrafos malfeitos ou diálogos sem coerência nos impedissem de criar novos mundos, histórias, narrativas, ou, em tempos tão sombrios, novas realidades possíveis?


Eu não sei você, querido leitor, mas, hoje, eu afirmo que sou escritora porque escrevo. Sou escritora porque encontro a minha voz nas palavras, e faço com que outras pessoas encontrem as suas também. Através da nossa voz-palavra, criamos a possibilidade de um mundo onde vozes ecoem em liberdade.


Eu sou escritora. E você?