Matrix Resurrections e os ruídos alienantes

*com spoilers


Existe diferença entre analisar e interpretar um filme, afinal “a análise pretende entender como a obra é feita, e a interpretação visa encontrar o que aquela obra” quer nos dizer, tentando “dar um sentido lógico” ao que se passa na tela. Obviamente não há nem análise e nem interpretação pura, muito menos imparcial, pois a leitura do filme depende da carga teórica do espectador, além das “suas morais, sua idade, seu contexto social, financeiro, pessoal, psicológico”[1]. Desse modo, é possível avaliar um filme com um discurso asqueroso apenas pelos seus atributos técnicos e considerá-lo bom. Além disso, também podemos banalizar a mensagem de uma obra ao focar apenas em seus efeitos especiais, lutas coreografadas e perseguições em alta velocidade. A própria Lana Wachowski reclama disso nesse quarto filme ao discutir sobre a banalização da mensagem da trilogia original. Bugs lamenta com Neo sobre como a “Matrix” transformou a história dele, da Trinity e do Morpheus, tão importante para ela e muitas outras pessoas, em mero entretenimento esvaziado de contestação. Ela afirma que a “Matrix” faz isso: transforma tudo, inclusive sonhos e ideias, em armas de dominação. Essa discussão aparece mais aprofundada na reunião dos desenvolvedores do jogo. Enquanto que alguns integrantes definem a trilogia como uma crítica ao fascismo, à exploração capitalista, uma metáfora transexual, filosofia em roupas justas de vinil, um dos participantes diz que estão todos errados. Tudo se resumiria ao “Bullet time”, a armas, muitas armas e caos.


Quando fui assistir Matrix Resurrections, não queria apenas efeitos especiais, explosões gigantescas e lutas coreografadas e artificiais. Entrei no cinema em busca de uma crítica atualizada à nossa sociedade através de uma mensagem contestadora. Desse modo, carregado de spoilers, esse texto é minha interpretação e seguirei a mesma linha de questionamento utilizada quando analisei o discurso da trilogia original[2]: entendendo que o quarto filme da franquia, assim como seus antecessores, é um produto da indústria capitalista hollywoodiana e da ideologia Liberal, e que por isso já nasce podado e dificilmente haveria espaço para uma crítica direta ao sistema econômico do qual faz parte, mesmo assim o filme é contestador? Lana, ainda que novamente não coloque as discussões na perspectiva da luta de classes, conseguiu atualizar a crítica à nossa sociedade ocidental capitalista tão diferente daquela de 1999 e sua pressão ainda maior sobre os indivíduos? Vale comentar de imediato ter sido bastante interessante a cena sobre a Warner exigindo a continuação, mas falarei disso mais adiante enquanto tento responder essas questões.


Como historiador, eu procuro ser o mais isento possível – assim como faço em minhas pesquisas – e busco fundamentar minhas afirmações em elementos retirados do filme. Começarei com a nova cidade dos humanos no mundo real, Io. Muito diferente de Zion, uma cidade controlada por um “conselho de idosos hippies” que acreditavam nas lendas sobre um escolhido para liderar a revolução contra as máquinas (sistema), a nova cidade dos humanos é governada por apenas uma pessoa: General Niobe. Apesar dessa centralização de poder nas mãos de uma líder militar de alta patente e que nunca acreditou no “Escolhido”, sem espaços para questionamentos e com punições aos contestadores, os jovens revolucionários respeitam a líder anciã, pois ela só deseja o melhor aos seus cidadãos. Entretanto não vemos esse povo e não sabemos suas opiniões a respeito da governante que decidiu não lutar mais contra as máquinas e preferiu se esconder. Mais ainda, ela fez alianças com representantes do sistema que desejavam ajudar os humanos – como disse Morpheus, nem todos querem controlar. Dessa maneira, rompendo a ideologia do “nós contra eles” e entendendo que nem todos são iguais e pode haver aliados nos lugares mais inusitados, humanos e máquinas usaram a tecnologia para criarem uma sociedade sem muita liberdade (com os protocolos da General), mas muito melhor do que Zion. Essa questão de o mundo não ser binário, de não haver um lado deles e um lado nosso, é recorrente no filme e vem em boa hora, considerando o clima de extrema polarização e divisão de hoje em dia. Mesmo com toda a evolução e progresso da cidade, a chama revolucionária nunca se apagou e no interior desse Estado centralizador e pouco democrático, um grupo de jovens rebeldes tenta reencontrar o “Escolhido”. Sonhando em derrotar o sistema, eles fariam qualquer coisa para libertar Neo e Trinity. Por conta de suas crenças revolucionárias, acabaram batendo de frente com o governo que um dia já foi libertário, mas agora desistiu de libertar as pessoas e prefere cultivar morangos.


Quando olhamos para a “Matrix”, a crítica é mais focada nos problemas individuais. Neo é um homem branco com cerca de 60 anos, rico, famoso e superinteligente, mas com problemas para distinguir ficção e realidade e sofrendo alucinações. No auge de uma crise, quase se matou ao tentar sair voando do terraço de um prédio. Agora toma um monte de remédios para manter a sanidade e paga muito caro ao analista para ter respostas às perguntas difíceis e ser convencido a aceitar sua vida solitária. Pressionado pela Warner e seu patrão a fazer o quarto jogo, ele entra em crise, para de tomar a medicação, bebe demais e começa a questionar a realidade novamente. Por conta disso, quando encontra Morpheus, acha que está tendo outro surto psicótico. Mesmo depois do Déjà vu e da “consulta” com o analista, Neo continua perturbado e bebendo até tentar se jogar do prédio novamente. A crítica aqui me parece bastante óbvia: dinheiro e fama não são suficientes para uma boa vida quando você permanece sozinho e enfrenta transtornos mentais. Neo é passivo, anda de cabeça baixa e está amedrontado demais para reagir. Dopado de remédios, é tímido, introspectivo e solitário. Apesar da fama e do dinheiro, permanece conectado à roda do sistema e preso em sua rotina, andando sem rumo na esteira criada para ele. Não existe liberdade, entretanto ele não é mais um jovem rebelde e parou de lutar. Leva a vida à base de remédio e álcool, chega a fingir que tem companhia para o jantar, mas continua sozinho e triste chorando na banheira e fazendo aquilo que mandam fazer. É um gênio sem liberdade criativa e criando o que o patrão ordena criar. Isso o tortura, todavia é seu emprego, então segue a vida anestesiado e sonhando em fugir daquilo tudo.


Bem diferente de Neo, temos a figura do Smith representando a chefia, o cara que trabalha em função do Mercado e do lucro. Apesar de sua posição de poder, ele não está no topo da hierarquia e também recebe ordens, mas isso não parece incomodá-lo, como fica visível na cena sobre a pressão da Warner para realização da continuação – se não fizermos, alguém faz, então vamos fazer. Ele inclusive já havia conversando com o pessoal do marketing antes de falar com o criador do jogo, deixando claro quem manda e quem obedece. Sobre essa falta de liberdade criativa, a reunião com o marketing escancara como dentro das corporações as obras já nascem podadas e devem literalmente seguir um manual. Essas discussões no filme não ocorrem a partir da perspectiva da luta de classes, mesmo com Morpheus citando Marx ao encontrar Neo no banheiro: “farsa ou tragédia?”. Todavia, apesar de não ser um ataque direto sistema econômico, a condição de Neo, a figura do Smith e o modo de agir das corporações formam uma crítica ao capitalismo da produtividade, que pressiona o indivíduo ao máximo e aumenta mais e mais o número de pessoas com transtornos mentais.


Com Trinity, a questão é uma bela denuncia do patriarcalismo e do machismo em nossa sociedade: trata-se de uma mulher que casou mais porque foi criada para casar, mais porque foi condicionada pela educação, pelos padrões sociais, do que por vontade própria. Além de não ter certeza se a escolha foi dela e de ser atormentada por isso, ela também parece ser uma mãe e esposa submissa e sufocada. Já na primeira cena na cafeteria, vemos como seus filhos exigem a atenção dela e como o marido é grosso, simplesmente comendo o lanche de Trinity, deixando-a visivelmente incomodada e até envergonhada com aquilo. Ela está cansada – filhos cansam! Está com os nervos à flor-da-pele, revoltada consigo mesma por aceitar ser tratada sem o devido respeito por seu marido e com vontade de chutar a cara dele. Gostei muito desse foco sobre ela e sua libertação desse papel criado pelo sistema machista e patriarcal para controlá-la. Inclusive o analista comenta que antigamente era bem mais fácil manter as mulheres na linha. Parece uma mensagem bem feminista, assim como o espaço que Matrix Resurrections abre às personagens femininas com Niobe, Bugs, Sati e Trinity.


Se as críticas acima não são tão diretas e exigem uma carga teórica de quem assiste, as falas do analista são um soco na cara da nossa sociedade. Ele afirma com todas as letras que a “Matrix” dele (o sistema capitalista atual) é muito mais poderosa e eficiente, com a dominação acontecendo a partir da manipulação dos sentimentos, principalmente medo e desejo – para o sistema, esperança e desespero são praticamente iguais. Os indivíduos, bem diferente de antes, agora não querem mais se libertar. Vivem em seus próprios mundinhos de ficção e não dão valor e nem atenção aos fatos. Isolados em seus casulos de certezas, de autoverdades, acreditam nas coisas mais loucas (e nas piores Fake News que aparecem, né?). Desejando aquilo que não possuem e com medo de perderem o pouco que conquistaram, as ovelhas são cada vez mais maltratadas e mesmo assim produzem mais e mais energia. As pessoas gostam de ser controladas, alimentam os algoritmos da “Matrix”, recebem de volta somente o que fortalece suas ficções e permanecem presas em seus “estranhos loopings”. De tão controladas viram robôs prontos para atacarem qualquer ameaça ao sistema – um enxame de bots se jogando dos prédios sobre os inimigos foi uma cena alucinante e uma metáfora incrivelmente inteligente.


Por conta de tudo discutido aqui, considero Matrix Resurrections um filme contestador e inteligente, que soube revisar muitos aspectos criticados na trilogia original, como as soluções individualistas, por exemplo, e conseguiu atualizar a crítica ao sistema capitalista atual. Se nos primeiros filmes a mensagem era sobre o desejo de revolta do indivíduo contra as padronizações e a pressão dos grandes discursos normatizadores, contra o Estado, agora temos indivíduos que se acham livres, mas que estão mais escravizados do que nunca e ainda gostam dessa prisão. Isoladas em suas ficções individuais, as pessoas amam e defendem esse sistema explorador e isso deixa o trabalho dos contestadores muito mais complicado – ninguém quer saber! Por conta dessa dificuldade, bem diferente daquele “oito ou oitenta” de 1999, quando o discurso dos filmes era de guerra contra o sistema, mas que depois acabou em um acordo de paz, Resurrections aponta a solução para outra direção. Io parece mais coletivista e tornou-se mais inclusiva ao receber máquinas, programas e Inteligências Artificiais como aliados. Entretanto é uma sociedade menos democrática e governada por uma líder militar progressista que adora a tecnologia e detesta a guerra, mas não aceita contestações. Mesmo o Estado de Io sendo centralizado, o sonho revolucionário não acabou e Lana valoriza os jovens que ainda desejam a revolução – interessante e certeiro mostrá-los como praticamente impotentes frente ao poder da General (do Estado). Apesar de suas diferenças, as histórias de Trinity, Niobe, Neo e Bugs nos apresentam um ideal de mundo menos binário e sem essa divisão equivocada de mocinhos e bandidos, de nós e eles. Menos individualista e menos machista, esse mundo ideal não-binário é muito mais focado na união entre indivíduos diferentes e no uso da tecnologia em busca de uma sociedade melhor, pacífica e mais inclusiva. Mais que isso, ao novamente apresentar as diversas contradições do capitalismo patriarcal e da luta revolucionária, Matrix Resurrections deixa claro como há muito trabalho pela frente se você deseja ajudar a mudar esse mundo: o sistema (a Matrix) está muito mais forte, as pessoas gostam dessa prisão ideológica e as opções fora do sistema (Io) parecem tender para um autoritarismo antirrevolucionário. Sendo assim, precisamos unir nossas forças e pintar e repintar o céu com arco-íris várias e várias vezes só para lembrar às pessoas em seus casulos o poder de uma mente livre.

[1] As diferenças entre analisar e interpretar – artigo de Bea Góes disponível em: https://narratologia.com.br/como-analisar-um-filme/ [2] Individualismo e Fascismo na Nova Matrix – artigo de Alexandre Camargo de Sant’Ana disponível em: https://jornalggn.com.br/cinema/individualismo-e-fascismo-na-nova-matrix-por-alexandre-camargo-de-santana/