• Gabriela Leite

O leitor nos tempos do Corona

Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos. (Gabriel García Marquez)

Nos primeiros anos de escola, ouvi um professor de História dizer que “a História é cíclica. Ela sempre, sempre, sempre irá se repetir”. Bom, ela está se repetindo. A última pandemia a níveis exorbitantes aconteceu em 1918, chamada de gripe espanhola. Eu e você, millennials, geração Z, nunca vimos uma crise global tão intensa como a presente. A História demorou um pouco para retornar a este momento, mas retornou.

Acontece que somos leitores. Ávidos, habituais, vorazes. Somos consumidos pela literatura. Alguns desde a infância, outros há tempos mais recentes. Se você, como eu, viveu o grande boom das distopias, tenho certeza que sua mente se pegou, de repente, imaginando um cenário tão caótico quanto Panem. O curioso da leitura é que ela nos manipula de tal maneira que faça com que imaginemos que aquilo que lemos é fictício ou utópico demais para que se encaixe na realidade. Mas também temos ciência de que não somos apenas passivos à leitura, mas que também fazemos com que ela seja manipulada por nós mesmos.

Em tempos de coronavírus, não tenho sido a melhor leitora. Não consumo e não tenho sido consumida. Tento viajar para lugares distantes mesmo sentada no sofá da sala, mas não consigo sair do lugar. Tento estudar e entender mentes brilhantes e notáveis deste tempo, mas mal consigo me entender e compreender o que se passa. Em tempos de coronavírus, o que tem sido de nós, leitores?

Tenho percebido como muitos amigos reclamam da falta de foco ao ler, ao escrever. Como, então, nosso consumo literário tem sido tão afetado por estes tempos incertos e de grande ansiedade e de busca de resoluções rápidas?

Minha terapeuta me disse que nossos cérebros precisam saber caminhos para “traçar pensamentos”. Por exemplo, se estou aprendendo francês pela primeira vez, meu cérebro precisa de muito esforço para reconhecer as novas palavras, a gramática e as expressões. Digamos que ele precise de um enorme facão para abrir caminho em meio a um milharal. Nós, que nunca vivemos um momento tão soturno e estressante, não conseguimos abrir o caminho para entender as medidas da situação. E isto, meus amigos, influencia nossos hábitos. E o que é um hábito comum a nós? A leitura.

A frase no início deste artigo é do livro O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Marquez. Achei interessante o trocadilho com o título, pois o que são os tempos do coronavírus senão tempos de cólera?


O autor define que nós não nascemos a partir do momento em que nossas mães nos dão à luz, mas no momento em que nós mesmos nos parimos. Isso converge totalmente com a nossa fome de leitura. Iniciar um novo livro é um momento de nascimento. Você ainda não sabe onde está, não sabe onde irá chegar e, mesmo assim, está lá. Nasceu naquele lugar, naquele tempo.

Nesses tempos de falta de foco, falta-nos nascer de novo. Falta-nos encontrar as páginas certas para esse momento incerto. Precisamos ser dominados pela convicção de que ao abrir um livro, estaremos dando a nós mesmos um novo momento de nascer. Um momento em que teremos incertezas, dúvidas, medos, questões, mas que estamos vivos. Estamos aqui. E isto basta.

PS: fique em casa, mas viaje pelas páginas.

Pensando livros, descomplicando a publicação, tudo isso sendo uma editora idealizada por profissionais dedicados e comprometidos com a arte literária.

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