• Gabriela Leite

Pode um escritor (tentar) guiar outro escritor

“Este é o poder decisivo de uma obra singular: o chamado à ação. E eu, repetidamente, sou tomada por uma arrogância orgulhosa que me leva a acreditar que posso atender a esse chamado.” Essas são as palavras maravilhosamente escritas por Patti Smith, em seu livro “Devoção”, no qual a autora aborda as dores e as delícias da escrita e do ofício de ser escritor.


Se formos ousados o bastante, podemos destrinchar tal declaração em duas partes. Gosto de pensar que tenho essa intimidade ousada com cada autor que encontro. Então, Patti, permita-me dissecar a tua obra.


“Este é o poder decisivo de uma obra singular: o chamado à ação.”


Tenho para mim que a busca por inspiração é parte fundamental do processo de escrita. Óbvio que a máxima “90% transpiração, 10% inspiração” é válida, mas ainda assim acredito que a barra da inspiração deva ser erguida mais um pouquinho. Nós subestimamos a inspiração.


Lembro que ao ler este trecho, fui inundada pela necessidade de escrever. Eu não sabia o quê, mas eu precisava atender a tal chamada à ação.

Mas o que acontece quando a inspiração não é o suficiente? A chamada à ação é capaz de suprir as necessidades da escrita? Entramos, então, em um ciclo de autoflagelação por escutarmos a voz da inspiração, mas não termos as ferramentas necessárias para organizar as palavras e ideias.


Acredito que parte da nossa criação, enquanto escritores, advém do prazer da escrita: “sou autor porque gosto de escrever”. E isso é importante. Super. Entretanto, gostar não “põe a comida na mesa” da criação. O gostar não é o suficiente para aceitar a missão que nos foi dada.


Disciplina, regras, teoria, prática, rotina. Essas são coisas imprescindíveis ao autor que deseja se levar a sério. Transpiração, fazer e refazer, escrever e apagar e escrever de novo. Esses são os passos necessários para a caminhada que escolhemos.


Neste exato momento, estou com um sorriso bem bobo no rosto porque, na verdade, sinto que escrevo este texto para mim. Veja bem: meu último texto para o blog saiu há dez dias. Logo, eu o finalizei muito antes dos dias que acabei de citar. Assim sendo, calculo que eu tenha tido um pouco mais de vinte dias (talvez mais) para iniciar um novo texto, aprimorá-lo, editá-lo e tentar chegar um pouquinho perto da minha ideia de perfeição.

A realidade? Estou escrevendo o presente texto às 21h, do último dia do prazo que eu mesma me dei (e prometi à CEO).


Você consegue ver como a disciplina está inteiramente intrínseca à ideia de criação? Eu aposto um pix de R$1 que Da Vinci planejava sua arte. Ele provavelmente não tinha um planner ou apps como o Notion, mas ele sabia o que queria e quais eram seus objetivos. Por amor à sua arte, Leonardo a priorizava de maneira a privar-se de distrações a fim de mantê-la no padrão estabelecido por si.


Então, queride, trago notícias: você precisa priorizar a sua arte. Você gosta de ser reconhecide por ela, gosta de ter sua obra elogiada. Se há em você o desejo de reconhecimento e mérito, precisa haver, também, o senso de responsabilidade e compromisso.


Pense neste texto como um abraço. Um abraço que foi precedido de uma sessão de choro, gritaria e desespero. Logo após, uma bronca. Mas a bronca veio de alguém que está plenamente ciente dos erros que cometeu. E, então, o abraço. Abraço leve, calmo e confortável.


Espero que este abraço chegue a você como eu o idealizei: proporcionando mudança e provocando risinhos amarelos no canto dos lábios.


PS: As inscrições para o Contos do Além-mundo vol. 2 começaram semana passada, e me pergunto se você priorizará a arte que tanto ama ou fará como esta indiscreta escritora e escreverá nos quarenta e cinco do segundo tempo, torcendo para que a inspiração seja o suficiente. E, convenhamos, não é.